Aos olhos que hão de brilhar
Há possibilidades infinitas entre a palavra e o silêncio. O gesto captura o que não foi dito como também as palavras que encobrem o que de fato queria ser dito. Há uma diferença muito grande neste ponto. Pois você pode dizer bom dia, mas na verdade, querendo dizer, não me abandone. Ou até mais, querendo dizer eu te amo. Seria mais fácil dizê-lo, talvez alguém precitado pense, cheio de certezas diante da vida, mas acho que, tudo o que é calado, assim bem fundo dentro da gente, ainda não foi verdadeiramente maturado. É uma ideia que paira no ar, um acontecimento que ainda há de vir, ou que pode acontecer. Não se fez presente. Tem o tempo certo para germinar. É preciso saber o quanto dá de água, deixar o tempo certo de sol, saber revirar a terra corretamente. Esse tempo, é pressuposto de gestos. Assim, como esses citados, bem precisos e reais. Um abraço, uma conversa, um olhar. No dia que desabrocha, rompe assim, sem tempo para pensar. Não há mais medo nem espera, pode enfim ser palavra aberta. Sem aflição. Estamos muito afoitos para o sim da vida. Os nãos criam a sobriedade para pés mais firmes e cuidadosos. Assim, sentindo um pouco o terreno antes de pisar com tudo. Antes de chegar chegando. Para ser sincera e aberta, é preciso também firmeza. Pois caso não consolidado o fruto esperado, saber andar para trás ou pros lados, em busca de novos caminhos, sem insistir naquilo que não abraça, que não acolhe.
Sou espera e movimento. Isso se configura no tempo da vida. Não é possível ser apenas mover, assim como não há de ser bom ficar apenas no mesmo lugar. As quatro estações do ano, certamente têm uma razão de ser, como tudo que está neste Universo, que foge a lógica do cérebro humano. É preciso atravessar também os invernos. Sentir o frio. Existe o tempo do recolhimento. Onde a palavra vai ganhando nova forma, e sentimentos arrebatadores vão encontrando morada.
Silêncio, tem um amor cochilando na cadeira de balanço que ficou parada na varanda. Tem uma paixão que depois de um bom banho relaxante de ervas, descobriu que na verdade não estava apaixonada. Preferiu ficar em frente a lareira e parar para ler um livro. O desejo e a vontade continuam abraçados, mas agora usando meias que combinam e bebendo um bom chocolate quente. Não há nada a ser dito, por enquanto, todos estão ocupados em sentir. É uma longa preparação até o verão. Tudo fica mais quente, mais urgente. Mas com toda essa preparação, certamente o que vingar há de ser bonito e verdadeiro. Pronto para romper do coração, saltando aos olhos que hão de brilhar.
Cris Lemos
Enviado por Cris Lemos em 15/07/2025